
São também de amor as nossas histórias. São também notas sem cor nos dedos que fluem como a noite nas teclas aladas de um piano. São linhas circunflexas que volteiam na trama e descrevem as nossas horas inquietas como forma de amaciar o desejo. São a falta de pontuação em frases que não queremos acabar, parar, travar apenas para traçar a vida de olhares ainda apaixonados quando nos regemos de um presente-passado que não passa. Aliamo-nos pela precariedade de um futuro que nos traz uma mão cheia de dias incertos, dias de amantes distantes, amigos enamorados, ou outra qualquer mistura de sentimentos que nem para nos sabemos explicar. Enquanto se repetem as promessas mudas implícitas nos momentos chaves dos meses que pressentimos, selamos as juras boca á boca com as letras soltas que fogem de frases que nos marcaram, e aqui e ali completam o sentido dos suspiros arrancados pelas saudades eternas do que não pode ser esquecido. E os segredos continuam a permanecer assim, escondidos de todos e de nos, sem nos atrevermos a mergulhar fundo numa morfina capital de tantas lembranças, de tantas outros fins que inventamos para a nossa historia. Seguimos assim, de mãos fragilmente dadas, sem nos pertencermos, sem nos afastar-mos, sem nos darmos mais á neblina que embacia este vidro á prova de bala que nos separa, que nos leva para um longe por vezes tão perto, por vezes tão claro, que pelas mesma vezes parece que parte sobre vontades de um mar que serpenteia quando nele caem lágrimas de mel dourado. E continua assim a viagem de longo curso sem saída, onde os tronos onde nos sentamos sentenciam a nossa queda ou a nossa glória, apenas por termos ousado sentir o inesperado, o que prematuro marcou mais do que anos de história. Sem fim á vista ou algum porto seguro de areias brancas para dar outro sentido á viagem, resta-nos ir ao sabor da maré, enquanto outra estrela não te ofuscar, ou outra paixão não me roubar ao azul do teu céu.